
Luís Mesquita, da Associação para a Educação de Segunda Oportunidade, fala-nos sobre os desafios de uma escola que luta contra o abandono escolar.
Em que consiste o projecto Escola de Segunda Oportunidade?
A Escola de Segunda Oportunidade de Matosinhos (E2OM) nasceu da necessidade de acrescentar ao sistema educativo uma resposta específica ao problema persistente do abandono escolar e das baixas qualificações dos jovens que os torna mais vulneráveis aos processos de exclusão social. Aderimos a uma proposta já existente noutros países da Europa que se tem vindo a revelar muito pertinente e adequada à situação portuguesa.
A E2OM não é simplesmente uma escola e organiza-se como um projecto sócio-educativo que procura intervir nas várias dimensões da vida dos jovens, envolvendo activamente outros agentes socioeducativos: IEFP (Instituto do Emprego e Formação Profissional), escolas, centros Novas Oportunidades, juntas de freguesia, centros de saúde, sistema de protecção de crianças e jovens, associações empresariais.
Todos os jovens da E2OM são integrados em percursos de certificação escolar e profissional, em articulação com os sistemas regulares de formação e certificação. São ainda desenvolvidas diversas actividades culturais, desportivas, de educação para a saúde, de higiene e segurança, visitas de estudo e organizados intercâmbios internacionais de jovens.
Quais são os maiores desafios deste projecto?
São inúmeros os desafios que diariamente enfrentamos e que decorrem da variedade e complexidade dos problemas que os jovens transportam com eles e que foram acumulando ao longo do seu percurso de vida. Somos sobretudo um espaço de comunicação, onde dia a dia se constroem relações de confiança, afectividade e identificação e, nesse sentido, somos a sua segunda casa, a sua segunda família. Aqui acolhemos e aceitamos incondicionalmente os jovens, com a sua linguagem, os seus adereços e estilos pessoais, os seus consumos, as suas oscilações de humor, construindo desde esse ponto de partida novos percursos e projectos pessoais significativos. Valorizamos os seus talentos (tantas vezes clandestinos), apostando na descoberta e reconhecimento do seu potencial, contrariando desta forma a representação social que os reduz a estereótipos de marginalidade e os condena à reprodução das vidas dos seus pais e dos seus contextos sociais de pertença.
Outro desafio é a estratégia educativa de não haver punição. O modelo punitivo e o recurso ao argumento da autoridade estão, quase que naturalmente, interiorizados, mesmo entre os profissionais. Logo é difícil funcionar fora destes referenciais de acção e isso gera, por vezes, incoerências de funcionamento e de acção. Por paradoxal que seja, são, muitas vezes, os próprios alunos a acharem que deviam ser mais castigados.
O financiamento da escola é outro dos maiores desafios. A E2OM tem vindo a funcionar com o apoio dos nossos principais parceiros, a Câmara Municipal de Matosinhos e a Direcção Regional de Educação do Norte (DREN). Mas estes apoios são insuficientes para assegurar o funcionamento integral desta resposta. No primeiro ano do funcionamento da escola, a aprovação de uma candidatura ao Programa Operacional Potencial Humano (POPH), bem como de outras candidaturas a programas europeus, permitiu à escola desenvolver todo o potencial da sua proposta sócio-educativa. Mas o projecto continua muito dependente da sua capacidade para captar investimentos públicos, nacionais e europeus, que, além de não serem suficientes, são (re) equacionados todos os anos.
Como vê a aposta de Portugal em escolas ou programas de segunda oportunidade?
O carácter estrutural do fenómeno do abandono escolar bem como a natureza específica da condição juvenil vivida hoje no interior de economias e sistemas sociais fortemente competitivos no acesso às oportunidades, bens escassos e socialmente mal distribuídos, têm aprofundado o fosso entre sucedidos e insucedidos e feito emergir uma nova subclasse educacional, com grande visibilidade nos quotidianos das cidades.
Estamos perante uma verdadeira emergência social. O desafio que hoje se coloca em Matosinhos, no país e na Europa, é retirar estes jovens da margem da sociedade e dos processos de exclusão social em que se encontram, com pesados custos sociais associados bem conhecidos, e proporcionar-lhes a construção de percursos de formação e dinâmicas de (re) inserção social que lhes permitam encontrar um novo rumo para as suas vidas.
A Escola é parte deste processo segregador. O abandono escolar é feito de abandonantes e de abandonados, de afastamento dos jovens mas também de desinvestimento da escola na sua integração. A função selecção continua mais forte do que a função integração e formação.
Sem qualificações adequadas para aceder a um emprego ou a novos percursos de formação e sem competências pessoais e sociais básicas para uma adequada integração social e ocupacional, estes jovens são as primeiras vítimas do desemprego, condenados a uma existência precária e a um futuro incerto. Precisamos, portanto, de persistir no esforço de democratização da educação, para vencermos um dos mais graves handicaps do nosso desenvolvimento, encontrando em cada momento formas de apoiar os sistemas de educação e formação, oferecendo a todos aqueles que abandonaram a educação sem as qualificações básicas oportunidades de aceder a formação de segunda oportunidade de acordo com as suas necessidades.
Que impacto têm as novas tecnologias no projecto?
Informática, multimédia e novas tecnologias assumem um papel central na vida da escola e são importantes ferramentas formativas, ao serviço de aprendizagens activas dos jovens.
Todos os jovens são iniciados e incentivados a utilizarem as ferramentas informáticas de comunicação. A experiência da escola tem vindo a mostrar que as novas tecnologias de informação constituem um contexto muito motivador para os jovens que abandonaram os sistemas regulares de educação/formação, oferecendo-lhes um contexto metodológico favorável a uma aprendizagem activa e autónoma, não só desenvolvendo competências de utilização das TIC mas desenvolvendo neles também a consciência das oportunidades abertas pelas novas sociedades da informação.
Qual é o impacto deste tipo de projectos na vida dos alunos?
Nós achamos que é decisivo. Estes alunos chegam-nos com anos sucessivos de insucesso e/ou abandono escolar. Tivemos um caso de um jovem que não frequentava a escola há oito anos, alguns não sabem escrever e quase todos todos têm problema de literacia. Também lhes faltam muitas competências sociais de integração nos meios escolares e no mercado laboral. O que fazemos aqui é, focalizando-nos nos seus pontos fortes, na sua criatividade, energia, inteligência, talento e capacidade de trabalho e de liderança pessoais, proporcionar experiências de sucesso, experiências de aprendizagem e experiências emocionalmente correctivas. O nosso trabalho consiste em preparar os alunos para prosseguirem um projecto de vida mais claro e estruturado, com perspectivas de sucesso, seja continuando os seus estudos, seja no mercado de trabalho.
Os impactos da frequência da escola na vida dois alunos são muito variados, sendo aferidos através de um conjunto instrumentos de recolha de informação e de um procedimento sistemático de avaliação interna na perspectiva do desenvolvimento organizacional e da formação da equipa técnica. Mas em geral dizem respeito à frequência continuada de formação, à certificação escolar, à formação vocacional e artística, à integração no emprego e ao encaminhamento para outras ofertas de formação, ao elevado grau de satisfação dos jovens e à forte identificação e desenvolvimento de sentido de pertença e de ligação à escola, à regularização da situação de alguns jovens junto do sistema de justiça ou dos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras, ao encaminhados para instituições especializadas de saúde e reabilitação, entre outros.
E na dos professores?
A quantidade e intensidade dos relacionamentos interpessoais entre formadores e jovens durante todo o ano são, quando tudo corre como o planeado, muito elevadas. Isso provoca uma proximidade muito grande entre alunos e toda a equipa. Essa proximidade faz parte da nossa metodologia. Quanto mais próximo emocionalmente for o modelo dos comportamentos, maior é a probabilidade desse comportamento ser copiado, adicionado ao reportório comportamental do jovem. Essa proximidade tem por vezes um custo emocional elevado e pode conduzir a alguma perda de objectividade mas é extraordinariamente recompensadora nos casos de sucesso.
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